quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Entre a Hegemonia Socialista e a Hegemonia Liberal – ou a “Abrangência” como Estratégia Político-Cultural do Declínio Socialista


A relação entre Política e Cultura é em Portugal uma relação descuidada ou, mesmo, desprezada. Tanto no plano teórico, como no plano prático.
De resto, entre nós, a política tem-se sempre deixado inspirar demasiado pela absorvente importância de outras questões – sobretudo a financeira e a militar – apesar de estas continuarem (e talvez por isso mesmo) insolúveis e de pouco dizermos ao mundo em qualquer desses dois planos.
É rara entre nós, por exemplo, a concepção da política e do político como “guia”, “mediador” ou “intérprete” entre a cultura do seu país e a do seu tempo, facto que, aliás, não se pode confundir com a abundância de políticos próximos da tentação literária ou da condição de escritores falhados. Os políticos movem-se mais ora como sombra dos interesses, ora como a sombra da força, ora medindo essas duas sombras com argumentos jurídicos, mais do que como a expressão de um entendimento cultural do país e da sua necessidade de renovação. O ambiente é tal que, às vezes, se chama intelectual a um político para o “queimar” ou reduzir. Ser político e, ao mesmo tempo, ter ideias pode ser considerado uma fragilidade. Em compensação, não ter contacto com os negócios pode ser considerado como sinal de imperícia política... E, no entanto, a dimensão da História e a dimensão do Estado são categorias culturais essenciais de cuja consciência terá que depender forçosamente qualquer projecto político de longo prazo, crível, eficaz e minimamente consensual. Só nessa consciência e dimensão se poderá mesmo basear a recusa de uma política do efémero, assim como a de qualquer pura administração situacionista. Talvez seja até por isto mesmo, por falta desse elemento “cultural” na acção política, que tanto o Bloco-Central, como todo o centro político da actual situação portuguesa tende para a simples glória do dia seguinte, tendo perdido da História até a ilusão...
É curioso notar, aliás, como em Portugal temos vivido politicamente entre o espírito salvífico da Revolução e a condescendência total do Pragmatismo mais absoluto. No primeiro caso (Revolução), a ideologia é uma espécie de “enlatado” que substitui as ideias próprias. No segundo caso (Pragmatismo), as ideias são consideradas desnecessárias, o que, aliás, é o primeiro passo para serem consideradas perigosas. Revolução e Pragmatismo são, pois, dois opostos totais mas que se conjugam entre nós e sem a mediação fundamental da “razão cultural” ou político-cultural. Entre a vaga optimista do país-cor-de-rosa e a vaga pessimista do país-negro, não se consegue fixar o passo no movimento da modernidade europeia, pensado previamente, concebido, organizado e divulgado. E as categorias humanas dominantes são duas, também. De um lado, o revolucionário que nasce com a “Fénix” sempre que as tensões se acumularam excessivamente e o rol de truques do “pragmatismo” acabou. Do outro lado, o pragmático que cavalga a onda de informação e cultiva a habilidade rotineira, o “facto” político e o deambular no palco segundo encenações improvisadas. O “projecto” político é para este último personagem um fardo juvenil que se vai descarregando. A própria hipertensão ideológica primeiro provocada se transforma, depois, em confusão ideológica, aparecendo, por exemplo, os de esquerda a cantar motes liberais, quando não a erguer pequenos fachos de autoritarismo.
São dois tempos diferentes e opostos, mas do mesmo ritmo conjunto.
Dir-se-ia, sobretudo, que, entre nós, a cultura, a ciência e o espírito moderno, apesar dos progressos havidos, nunca conseguiram até agora impregnar a vida diária do país. Nunca conseguiram tornar-se valores médios de referência e, por essa via, aspirar a um peso político determinante, dirigente ou sequer arbitral. O que, porém, tem de se distinguir da permanente institucionalização de uma cultura oficial, de uma cultura de regime, postiça pois, que as revoluções sempre alimentam. Mas, também, esta “revolução” “cultural” é serva da política, tal e qual como a própria revolução política surgira ou tivera, pelo menos, como parteira, a revolução militar. A institucionalização de uma cultura oficial é, à distância, retrospectivamente, apenas o mais pragmático dos truques, uma espécie de propaganda consolidada, subliminar até ao tutano das próprias origens constituintes do sistema, qual mão invisível. Mas é o estabelecimento desse partido político-cultural-oficial que explica a constante submersão tanto da cultura tradicional portuguesa como da invenção cultural. (...)


(in "Com Portugal no Futuro", de Francisco Lucas Pires, IDL, Lisboa 1985, p. 17-19)

4 comentários:

JC disse...

Quando era puto fazia colecção de calendários e autocolantes. Como cá em casa era tudo do CDS, havia uns autocolantes do CDS. Entre eles havia um do Freitas do Amaral aquando das presidênciais contra Mário Soares, mas foi outro que me chamou a atenção. Havia um com um homem sorridente e de barbas. Simpatizei com aquela sorriso, e mais tade quando saiu da presidencia do CDS fiquei triste. O homem do autocolante, com aquele ar simpático e sorridente, deixava de ser presidente do partido cá de casa. Era um homem que falava com calma e parecia-me correcto. Não andava aos gritos a inflamar multidões. Cá em casa, se bem me lembro, não lhe perdoaram ir para o PSD, e não eram entusiastas da Europa. Os anos passaram e o meu irmão, então já militante do CDS e da JC, inscreveu-me na Juventude Centrista. Pouco tempo mais tarde, já com 17-18 anos, talvez nem tantos, escrevi uma carta a pedir a minha desvinculação. Não me identificava com partidos,e muito menos com os meninos do partido em causa. O resto da história já conhecem.

Quando morreu fiquei com a sensação de ter morrido alguém meu familiar. O homem do sorriso e das barbas tinha sido atraiçoado pelo destino, quando me pareceu que ainda tinha muito para nos dar.

Quis partilhar esta história que nasceu através de um autocolante nos anos 80 em plena província alentejana.

Entretanto, tenho uns livros do Jacinto, que comprei, precisamente, por ser filho de Franscisco Lucas Pires, o homem das barbas e do sorriso afável. Não leve a mal, porque você tem o seu valor próprio, mas se não tivesse esse nome talvez não o tivesse lido até hoje. Além do mais, já me confundiram consigo.

Um abraço a todos vocês

rc disse...

Num breve texto, uma análise sobre grande parte da "crise" permanente em que Portugal se encontra (há séculos).

Brilhante a forma como aborda a questão do Pragmatismo, a glorificação dos "sem ideias", que se aplica de forma exacta ao momento actual do país.

A dicotomia entre os valores económicos e os valores humanos (principios)é abordada de forma quase subliminar mas é bastante reveladora.

Gostei muito, vou continuar a seguir.

JLP disse...

Muito obrigado. É bom saber que lembrar também pode ser uma forma de pensar o agora.
(E, caro JC, não levo a mal. Até levo a bem...)
Abraços

luis disse...

Hoje, a relação entre a Política e a Cultura continua pelas ruas da amargura. As “ideias” dos políticos são-lhes concebidas no asséptico de laboratórios de imagem, à moda dos cosméticos. As outras, aquelas que propiciam o enriquecimento cultural e intelectual de um povo e cujo debate constitui o pilar do regime democrático, são-lhes, de facto, perigosas; podem-lhes, até, estragar a pintura. E assim vamos vagueando pela Europa. É espantoso como, 23 anos passados, as palavras de Francisco Lucas Pires se mostram de uma actualidade inquestionável.